julho 29, 2010

A cada um o seu teatro. Cada um a representação cénica do que diz a mãe, do que diz o pai, do que dizem as câmaras de vigilância no local de trabalho. Cada um a patinhar o chão que a lenha ardida em solidão encheu de fuligem. Os outros, vistos de longe são a soma dos seus vestidos. Finos como caniços. Insignificantes como o suspiro de um velho. Mas no Verão pavoneiam-se com os seus corpos nus à espera que alguém olhe, como se ninguém estivesse a olhar. Cada qual no seu palcozinho onde um holofotezinho faz as vezes do sol. Cada um ensaia o texto que a mãe, que o pai, que as câmaras de vigilância do local de trabalho. Cada qual fala em circuito fechado a duvidar da sintaxe, dos sintomas. As impenitências da língua obrigam a uma constante revisão dos sentidos.

julho 26, 2010

Conversa com livros

«Sentia que se esgotava em mim o interesse e a curiosidade pelas coisas que ia deixando para trás, mas estava animado por um tal entusiasmo, por uma tal curiosidade pela vida nova que se abria à minha frente, que tudo o que existia me parecia digno de interesse. Tremia de entusiasmo, baloiçava as pernas nervosamente, até que a profusão, a riqueza, a complexidade de todas as possibilidades se transformaram, dentro de mim, numa espécie de terror.»
[Orhan Pamuk em "A Vida Nova"]

Parecia que as coisas antigas de que me queria ver livre a todo o custo não me largavam. Não saberia ainda nomeá-las, e apesar de virar as costas à almágama dispersa na velocidade invisível e pertubadora, tentava atrair uma força capaz de expulsar os fantasmas que sentia atravessarem-me por toda a pele. Tinha que haver algo mais, mesmo que duvidasse incessantemente da minha sorte em atingir a Vida Nova. Por vezes, preocupava-me a ideia recorrente de que o meu tremor e fascínio pela novidade fossem uma farsa, como se eu fingisse em acreditar em tudo o que não conseguia ver, como tivesse ganho colateralmente um hábito, mesmo um vício; um reflexo mais do que condicionado, de faculdade inoperante (para não dizer trágico).

julho 24, 2010

Then practice losing farther, losing faster. A perda como aventura, como precocidade. Acto programado de crescer – melhor, amadurecer no sentido em que os frutos deixados a sós amadurecem. Não aguentar que as coisas amadas nos façam sofrer – conhecer-lhes antes do tempo o limite, esvaziá-las. A perda como golpe e excitação.

julho 22, 2010

Escrevemos com derradeira esperança, tentando cada um lapidar a sua frase. O que fica na margem dos poemas, da prosa, da escrita do dia ou de um dia sem escrita. Restos, uma costura mal alinhavada. Escrevemos: se partilhamos é por acaso.