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janeiro 19, 2012

Soneto a uma fotografia do calendário Pirelli

O seu cabelo preto parece escutar,
sua forma prendida em concha,
a praia nua espreita o véu na onda
escurecida na areia tremeluzente.

É o vazio que ajusta a própria luz
e na calma dobrada o banho adorna.
O fio de espera nos lábios agarrando-se,
contendo em recuo o som da corrente.

A rebentação nasce como arrepio e sal,
retém o centro, como rocha, rodeada
pelas vénias de rastejamento aquático.

A música que ela escuta e não vês
é barco que gela quando naufraga a tal,
batendo na espiral que talha o teu mar.

(fotografia do Calendário Pirelli 2012)

dezembro 12, 2011

Ilógica de mercado

Vendeu-se. Passou
A ser cotado, a ter valor
A ser coitado, a ter pavor
Mais-valia ou menos-valia
Mais um dia - conferir a actualização
Da mentira, dos dados viciados,
Das promessas renegociadas

Vendeu-se com a loucura dissimulada na etiqueta
De olho nas voltas do mercado da venda e revenda
Atento à troca, à oportunidade de comprar-se
Em auto-liquidação ou insolvência judicial
Talvez chegar a acordo com os enganados para
Refundar o Eu-produto ao mistério dos sinais
E confinar o Eu-serviço à realização da fuga

agosto 29, 2011

Corpo Espiritual

Há um poço exilado no meu ser.
Escurecido, fugidio, ainda assim o sinto,
como se a réstea da minha alma
fosse uma crescente visão
impregnada do labor do faroleiro
seguindo à frente da tua busca
de contornos e pontos fixos.


Há na profundidade do teu corpo
como se move, como descansa,
como se espelha em modelos despidos,
uma razão para não ter pressa
em recuperar os sentidos.

Há no vagar dos corpos
a antiga consciência de refazer a luz.

maio 21, 2011

dificuldades práticas

Agora que conheço Pessoa, Borges e kafka;
que estou familiarizado com a literatura
mundial; que possuo consideráveis conhecimentos
dos filófosos gregos, da antiguidade clássica,
da história de vinte e cinco séculos de
humanidades e fizeram-me mestre em teoria da arte,
devo estabelecer certos compromissos práticos.

Agora que possuo um percurso peculiar,
afirmado pelos contactos com as civilizações do sul,
com as culturas no norte; agora que assimilei
o pensamento espiritual do oriente e conheci a
vida dos contemplativos e a biografia dos místicos,
já é altura de instituir como rotina
a separação dos resíduos sólidos.

maio 15, 2011

um olhar do mundo

Decidiu dar a volta ao mundo.
Quando parou pela primeira vez numa povoação
desconhecida, descansou,
os seus olhos abriram-se, sentiu
um consolo para uma dor que desconhecia
e por lá ficou.

E de lá continuou,
mas não era a mesma coisa sólida
não o mesmo mar demorado na concha.
Contou para sempre ser
o novo porto - o distráido destino
conduzido nos primeiros passos de menino.


Contava que largas são as partidas e curtas as chegadas
[distâncias].......por esses dias já ninguém o percebia.......um ponto-olho.

fevereiro 23, 2011

O último suspiro da esperança

Senhora - eu não sou digno
que entreis em minha morada
mas dai-me um só verso
e a minha musa será salva.
Mar - eu perdi a coragem
de me perder na viagem
mas lavai-me com uma só onda
e encontrarei um barco negro.
Um sinal. Onde estão os que guardei?
Que sentido tem, afinal, um recomeço...
velhas esperas - que impotência ainda sentir.
Futuro? Nem sarcasmo resta, só
uma ideia tola de evasão - nunca
saberás se não fores como eu.