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fevereiro 02, 2012

Bernard Quiriny

Pierre –Alexandre Skovsky (1919-1940): filho de pai russo e de mãe suíça, este rapaz foi um modelo de precocidade em todos os domínios. Aos nove anos, foge de casa e erra durante quatro meses pelas estradas da Europa antes de os guardas o deterem e reconduzirem ao domicílio familiar. Aos treze anos, especula na bolsa, ganha uma fortuna e compra vinte hectares de vinha que a filoxera devasta logo a seguir. Aos quinze anos, tem dois filhos: o primeiro morre ao nascer, ao mesmo tempo que a sua mãe; o segundo, filho de uma senhora da sociedade quase menopáusica, nasce idiota e desprovido do braço esquerdo. Aos dezasseis anos, escreve a sua autobiografia, Um Jovem Apressado. Entre os dezassete e os dezanove anos, redige seis romances, dois dos quais em russo, casa-se, divorcia-se, passa seis meses na prisão por burla, converte-se ao catolicismo e perde um olho num acidente a cavalo. Aos vinte anos, queima todos os seus manuscritos, reescreve-os e queima-os de novo – escapa apenas a segunda versão de Um Jovem Apressado. Um ano mais tarde, mete uma bala na cabeça depois de ter garatujado as seguintes palavras no canto de uma mesa: “Vivi bem; estou a envelhecer. Vou-me embora.”

Bernard Quiriny, Contos Carnívoros, Edições Ahab

março 05, 2011

Andar acalma

«Andar acalma. A marcha possui uma virtude salutar. O acto de colocar regularmente um pé à frente do outro, acompanhado pelo balançar cadenciado dos braços, a acelaração do ritmo respiratório, a ligeira estimulação do pulso, as actividades da vista e do ouvido necessárias à manutenção do equilíbrio - são acções que impelem o corpo e o espírito para uma convergência irresistível, permitindo que a alma, por muito atrofiada e traumatizada que esteja, cresça e se expanda.
Foi o que aconteceu ao duplo Jonathan. Pouco a pouco, passo a passo, o gnomo que habitava o corpo do enorme boneco foi crescendo até atingir o tamanho do seu invólucro, preencheu-o, dominou-o e, finalmente, identificou-se com ele.»
[Patrick Suskind em A Pomba]

Agora, depois de calçar umas sapatilhas confortáveis, sigo para a rua, testando se andar acalma o boneco exterior.

setembro 25, 2010

«Dele se disse que é o mais secreto dos poetas, e seguramente isto aproxima-se da verdade, pois para Walser tudo se convertia por inteiro no exterior da natureza, e o que lhe era próprio, mais íntimo, passou a vida inteira a recusá-lo. Recusava o essencial, o mais profundo: a sua angústia. Tal como ele mesmo dizia no seu romance Jakob von Gunten, disfarçava o seu desassossego no mais fundo das trevas ínfimas e insignificantes».
[Enrique Vila-Matas em "Doutor Pasavento"]

Não sabia desde quando a génese dos seus caprichos passara do campo dos sonhos e da idealização, para terrenos mais subterrâneos. Sabia sim, que um dos resultados desses mesmos caprichos derivou na dignidade por coisas tontas, que já por ser mais sofridas lhe pareciam agora menos tontas, mais aceitáveis, desde que permanecessem na esfera da sua solidão.
Aquilo a que luzia chamar de "suas pequenas dignidades" só a ele lhe dizia respeito, ja não por irremediável capricho, mas por não ter utilidade quer para a ética social, quer para as circunstâncias do mundo.

agosto 30, 2010

aldeia do céu

«...Licancabur queria dizer em Kuanza, que era um dialecto de Atamaca, terra de acima. Havia também quem, cristianizando-o, lhe chamasse de aldeia do céu, ou directamente céu. Começou a dar-me muitos detalhes do género e a implicar-me cada vez mais na investigação das almas ultraterrenas que possivelmente estavam todas refugiadas no alto do vulcão chileno.
-Descobriremos a verdade do além -disse ele
-Cuidado! Que quem busca a verdade acaba sempre por merecer o castigo de encontrá-la -adverti-o eu.»
[Enrique Vila-Matas in "Exploradores do Abismo"]

Não sei porque seleccionei este fragmento. Virá outro relacionado.
Não sei porque escolhi este momento. Este é um dos momentos, de núcleo inteiro..........................................

Sei que a busca da verdade é a ilusão mais querida, e parece-me justo procurarmos o castigo que só a cada um pertence. E não quero mais que aliviar a dor do teu castigo, tu meu herói, que encantado segues voltado para a face mais elevada da terra, onde pelo menos para ti dançam sem surpresa, céu azul e fogo do passado.
Dormem o homem e a mulher que não voltarão a ser - que a tua respiração não cesse para recordar; ou queria dizer, que a tua respiração não cesse, timidamente já - não cesses.
Pisa, por favor, a lava da encosta. São marcas alteadas do desejo engolido, matéria que não guarda o mais pequeno acontecimento. E senão te chegar tudo que ardeu desde as pontas dos tempos, pisa as almas de todos os piedosos mortos depositadas no cimo da cratera, ansiosas elas de minorar o teu castigo, a tua busca, também do teu abismo modelar as cinzas.

Não confundas a tua voz com o lago gelado
nem a visão do cume mais alto com o cume mais alto
nem a fotografia de Licancabur com Licancabur
porque o dono do momento é segredo bem guardado.

julho 26, 2010

Conversa com livros

«Sentia que se esgotava em mim o interesse e a curiosidade pelas coisas que ia deixando para trás, mas estava animado por um tal entusiasmo, por uma tal curiosidade pela vida nova que se abria à minha frente, que tudo o que existia me parecia digno de interesse. Tremia de entusiasmo, baloiçava as pernas nervosamente, até que a profusão, a riqueza, a complexidade de todas as possibilidades se transformaram, dentro de mim, numa espécie de terror.»
[Orhan Pamuk em "A Vida Nova"]

Parecia que as coisas antigas de que me queria ver livre a todo o custo não me largavam. Não saberia ainda nomeá-las, e apesar de virar as costas à almágama dispersa na velocidade invisível e pertubadora, tentava atrair uma força capaz de expulsar os fantasmas que sentia atravessarem-me por toda a pele. Tinha que haver algo mais, mesmo que duvidasse incessantemente da minha sorte em atingir a Vida Nova. Por vezes, preocupava-me a ideia recorrente de que o meu tremor e fascínio pela novidade fossem uma farsa, como se eu fingisse em acreditar em tudo o que não conseguia ver, como tivesse ganho colateralmente um hábito, mesmo um vício; um reflexo mais do que condicionado, de faculdade inoperante (para não dizer trágico).