janeiro 21, 2014

fevereiro 26, 2012

Fecho 477

Tenho saudades. Tenho febre em destoar pelas saudades de mim. Nostalgia terrível do espaço onde é possível assistir-me. Quero estar só no modelo ideal provocado pela escuridão, embrionário das primeiras ânsias, nesse típico fogo belo e desordenado.
Querer unicamente seguir – ser engolido a partir de dentro, em gestos não violentos além da visibilidade das cores desbotadas e de canais retorcidos como ferros maleáveis. Quero amplamente voltar – implodir de um extremo ao outro, poupando-me ainda à configuração do instrumento do ruído, cavalgando na geometria disseminada do arco-íris, suficientemente longe para não estalar gotículas de medo.
Quero enganar-me. Destoar com precisão biológica. Tentar-me desprovido dos ensinamentos exteriores, o mesmo que esquecer transcendentes enunciações filosóficas, o mesmo que desarticular a convergência dos saberes civilizacionais. Querer travar a luta do mito da realização não pela cultura colectiva, mas sim pelo incompleto em relação ao absoluto da minha ilusão potencial. (Ilusão é a alma).
O poder de distrair-se na direcção certa… transportar, sem disso ou alguém dar conta. Pois se tudo levo não é mais do que fortalecer uma exclusiva pessoalidade. E se não trago nada nem ninguém, posso finalmente aproximar-me da música reproduzida pela repetição da orquestra selvática do mundo, na qual me interponho no silêncio do sol.

fevereiro 02, 2012

Bernard Quiriny

Pierre –Alexandre Skovsky (1919-1940): filho de pai russo e de mãe suíça, este rapaz foi um modelo de precocidade em todos os domínios. Aos nove anos, foge de casa e erra durante quatro meses pelas estradas da Europa antes de os guardas o deterem e reconduzirem ao domicílio familiar. Aos treze anos, especula na bolsa, ganha uma fortuna e compra vinte hectares de vinha que a filoxera devasta logo a seguir. Aos quinze anos, tem dois filhos: o primeiro morre ao nascer, ao mesmo tempo que a sua mãe; o segundo, filho de uma senhora da sociedade quase menopáusica, nasce idiota e desprovido do braço esquerdo. Aos dezasseis anos, escreve a sua autobiografia, Um Jovem Apressado. Entre os dezassete e os dezanove anos, redige seis romances, dois dos quais em russo, casa-se, divorcia-se, passa seis meses na prisão por burla, converte-se ao catolicismo e perde um olho num acidente a cavalo. Aos vinte anos, queima todos os seus manuscritos, reescreve-os e queima-os de novo – escapa apenas a segunda versão de Um Jovem Apressado. Um ano mais tarde, mete uma bala na cabeça depois de ter garatujado as seguintes palavras no canto de uma mesa: “Vivi bem; estou a envelhecer. Vou-me embora.”

Bernard Quiriny, Contos Carnívoros, Edições Ahab

janeiro 19, 2012

Soneto a uma fotografia do calendário Pirelli

O seu cabelo preto parece escutar,
sua forma prendida em concha,
a praia nua espreita o véu na onda
escurecida na areia tremeluzente.

É o vazio que ajusta a própria luz
e na calma dobrada o banho adorna.
O fio de espera nos lábios agarrando-se,
contendo em recuo o som da corrente.

A rebentação nasce como arrepio e sal,
retém o centro, como rocha, rodeada
pelas vénias de rastejamento aquático.

A música que ela escuta e não vês
é barco que gela quando naufraga a tal,
batendo na espiral que talha o teu mar.

(fotografia do Calendário Pirelli 2012)

dezembro 14, 2011

dezembro 12, 2011

Ilógica de mercado

Vendeu-se. Passou
A ser cotado, a ter valor
A ser coitado, a ter pavor
Mais-valia ou menos-valia
Mais um dia - conferir a actualização
Da mentira, dos dados viciados,
Das promessas renegociadas

Vendeu-se com a loucura dissimulada na etiqueta
De olho nas voltas do mercado da venda e revenda
Atento à troca, à oportunidade de comprar-se
Em auto-liquidação ou insolvência judicial
Talvez chegar a acordo com os enganados para
Refundar o Eu-produto ao mistério dos sinais
E confinar o Eu-serviço à realização da fuga

dezembro 06, 2011

Sigur Rós

Gota a gota, nota
o esvaziar do copo
à medida que regressa
à medida vazia, sobe,
num chamamento vago
um contentamento interior
na transparência da música;
massa quieta do infinito

novembro 03, 2011

Ausência

Sem ti as palavras são mudas
E não estás
Se estivesses eu mudaria

Sem ti não são bonitas
Com as palavras ao nosso cuidado
Inventávamos lado a lado
sem interesse pelas aparências

Cuidar-te na noite de ninguém
Seguir no teu corpo um novelo de lã
Até ao sol da manha
E não acordar cansado

Avulta a medonha falta
A luta acorda o abandono
A culpa pela ausência que te persiste.

Liberta com o punhal a palavra presa
Mesmo que a ponta afiada do desejo
Viva a dor que é livre em mim
E só o amor fique ileso

Mas de escapar não te iludas se ficares para trás
As palavras que contam não contam
As nossas histórias
E as outras são tuas e mudas
Todas, porque tu não estás

agosto 29, 2011

Corpo Espiritual

Há um poço exilado no meu ser.
Escurecido, fugidio, ainda assim o sinto,
como se a réstea da minha alma
fosse uma crescente visão
impregnada do labor do faroleiro
seguindo à frente da tua busca
de contornos e pontos fixos.


Há na profundidade do teu corpo
como se move, como descansa,
como se espelha em modelos despidos,
uma razão para não ter pressa
em recuperar os sentidos.

Há no vagar dos corpos
a antiga consciência de refazer a luz.