Mostrar mensagens com a etiqueta diário a Beatriz. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta diário a Beatriz. Mostrar todas as mensagens

fevereiro 05, 2012


Diário a Beatriz / dia trinta

Será, Beatriz, desencontro o nome do nosso destino. E, por habitarmos a alma, a misteriosa sina de possuir sempre na lonjura do infinito a seiva que a alimenta e no vazio mais alto a estrela que a ilumina. Esta estranha força que nos assiste constante, preclara ao nosso desassossego de ver sempre tudo como talvez veria um cego de nascença se após o milagre da sua cura fosse a noite a sua primeira visão. A única esperança que se concretiza é aquela que se adia para sempre. Sabes bem que me entregarei a outras mulheres como te entregarás tu a outros homens. E seremos claros nisso como a manhã e profundos como o abismo e assumiremos com serenidade o desatino desse sangue e com modéstia a consequência dessa carne.
Onde estivermos não estará o nosso coração e habitaremos o corpo como um vagabundo que se abriga nas ruínas de uma casa abandonada.
O futuro virá. Quem formos. Não poderemos amar. Não poderemos morrer. Estaremos abandonados onde nenhuma realidade nos sabe exigir.

setembro 23, 2011

Diário a Beatriz / dia vinte e nove


Por vezes são tantas as ofensas e o medo, inexplicáveis, porque a maior ausência de sentido é a existência de vários que, ao nos encontrarmos assim rodeados pelo nosso egoísmo, todos esses sentidos inúteis, somos bem capazes de no desespero de uma fuga absurda oferecer o coração ao punhal e fechar os olhos à luz.

setembro 07, 2011


Diário a Beatriz / dia vinte e oito


Assim que claridade do dia nos permite distinguir o fim erguemo-nos do nosso leito de esquecimento e como medo irrompemos pelos caminhos contra a transparência da realidade. Nunca saberemos, por mais que se o afirme e procure e negue e ignore, nunca. E no entanto continuaremos a sentir que sim, mesmo quando não. A sentir que sim e a olvidar o que não, porque são inúteis as respostas, ainda mais as definitivas, para quem quer viver para sempre.

julho 02, 2011


Diário a Beatriz/ dia vinte e sete


Deparo-me no crepúsculo com a evidência do tempo e ouço a profunda melodia que desde o início é oferecida a todos os homens. Não é necessário partir, nem tão pouco achar poesia para as coisas. Há uma paz derradeira que nos tenta mas que preferimos adiar em proveito de uma melancia degustada contra a distância do horizonte. Deus não existe, e assim escolheu por dessa forma acontecer mais do que se existisse. Afinal é do inútil que vive o essencial.

junho 20, 2011

Diário a Beatriz / dia vinte e seis

Evocando o meu passeio matinal pelos terrenos da história vejo camaradas caídos sob o peso incorpóreo dos ideais. As ervas daninhas alcançam sempre irromper de um olhar, de um pulso, de um peito, e o joio cresce da fé dos cadáveres como a infância dos sonhos. Despojados. O mundo levou-lhes tudo de humanidade. Os lenços, as cigarreiras, as navalhas, os cintos, os botões. E de homens ficaram-lhes apenas as órbitas cegas, as pernas decepadas, os braços amputados, as estrelas no céu. Caminho pelo atalho dos corvos e sigo lendo com tristeza as bandeiras derrubadas como se fossem epitáfios. Liberdade, justiça, paz, perdão. Versos desprezados pela lira de Deus que eles escutaram por amor às mulheres. E apenas se pode dizer que os poetas são os verdadeiros assassinos.

maio 31, 2011

Diário a Beatriz / dia vinte e cinco


Infinita Beatriz, estes tempos que se fizeram da saudade que te escrevi ontem, cresceram afinal o oceano de esperança que hoje nos afasta, e porque algo do teu silêncio se revela agora num esquecimento, contra o epílogo sublime das vagas, todo o meu corpo se desmorona a chamar-te onde estás, pois nem marejado pelo crepúsculo das águas profundas nos olhos te consigo já distinguir na lonjura que antes foi a distância perfeita do meu coração.

abril 23, 2011

Diário a Beatriz / dia vinte e quatro

Há umas mulheres que quando passam me deixam um desejo incontornável de as questionar, que sopro te leva rapariga? E nesse mesmo impulso a definição de beleza. A beleza foi o presente que desdo início condenou o homem ao tempo e ainda hoje continua irresistível.

Eu sei que estou apaixonado e preciso dizer adeus a este mundo.

março 28, 2011

Diário a Beatriz / dia vinte e três

Não é ainda altura de voltar ao sentimento. Por enquanto devemos permanecer silenciosos no nosso ninho de musgo, abrigar-nos das chuvas cristãs e da rusga de tempestades solares, vender o nosso sorriso barato aos bonecos da televisão, dizer em voz do cume que desprezamos Camões, a sonata ao luar e os amantes voadores. Mas bem no segredo da nossa infância sofrer e esperar que este homem morra.

janeiro 16, 2011


Diário a Beatriz / dia vinte e dois

É como se tivesse dentro de mim um segredo, um segredo negro, perverso, que domina toda a minha vida, tão negro que não o consigo evocar.

dezembro 31, 2010

Diário a Beatriz / dia vinte e um

Foi no repente de um acontecimento inesperado, como se a angústia que toda a minha vida havia vivido na minha cabeça tivesse passado para o estômago, a dor, agora não existencial mas física, portanto impossível de combater com ficções, com alheamentos, cortando a minha raiz de homem, de Ser, e lançando-me para o negro ao abandono do meu próprio vácuo - o meu próprio vácuo.
Eis o inferno.

dezembro 09, 2010

Diário a Beatriz / dia vinte

Buscamos então o facto extraordinário que, não nos sendo concedido pelos deuses por ausência de mérito espontâneo da nossa existência que não se encontra fadada para a glória, se deverá alcançar à revelia por mão da astúcia manha no furto. Sim, porque nem só os mármores e os bronzes e as estrelas e o ouro, também nós, não obstante a nossa condição, nos achamos no direito à felicidade. Todos anseiam o calor do seu pouco de luz. No entanto também o crime exige a sua alma.

novembro 27, 2010

Diário a Beatriz / dia dezanove

E, à medida que os nossos corpos se aproximavam pela convergente lei da atracção, outras forças pontuais mil vezes mais poderosas, posto que infinitamente mais efémeras, despertaram para nos dar conta das circunstâncias do nosso relevo e desse perfil impor a particular história de cedência e coragem do nosso encontro.

novembro 20, 2010

Diário a Beatriz / dia dezoito

"O homem tem necessidade de amar e a mulher de ser amada" Tolstoi

E quando ela diz, eu amo-te, quer de facto dizer, eu quero que tu me ames.
E então pergunto, a quantos enganos não estará condenada a mulher?

"Vi lá longe o inferno das mulheres" Rimbaud

E aquelas procurando com maior urgência, corpo contra corpo, até o amor passar pela carne como a luz pelo vidro sem deixar sequer uma memória, sem produzir sequer um reflexo.

"Vai e doravante não tornes a pecar" João

novembro 08, 2010

Diário a Beatriz / dia dezassete

(Esperar pelo que não vem)

Haverá alguma cadeira neste mundo onde se possa sentar para esperar o que não vem? Eu não quero acreditar, mas sou quem diz o que vem e o que não vem, não quero admitir mas a única matéria que me toca é o sonho, porque tudo o resto está definido, tudo o que sobra está morto e dorme nas minhas mãos o último barro da criação, esta terra ausente que me expatriou assim que perdi o meu berlinde de criança.

outubro 27, 2010

Diário a Beatriz / dia dezasseis

Vejo almas empenhadas nas palavras e como almas elas próprias, as palavras, escravas e senhoras do homem. É preciso libertar as palavras, deixá-las sobrevoar os oceanos como aves desalmadas, pois só as libertando se poderá também o homem achar livre.

outubro 17, 2010

Diário a Beatriz / dia quinze

E talvez um dia, diante da torrente manancial da existência sugada pelo tempo, venha a possuir a ironia de dar um passo em frente, alcançando nesse derradeiro segundo - o mistério iminente - a absoluta flor das vida.

outubro 01, 2010

Diário a Beatriz/ dia catorze

Agora que a minha realidade se tornou escassa à coexistência de todas as minhas memórias e os sentimentos implícitos não me permitem o encontro, por entre o flagelo dos escombros e das brumas da angústia, do carreiro de seixos brancos, procurando apaziguar de certa forma todas as vozes com o alheamento da música, derrubo-me sobre o coração e entrego o apelo do meu olhar esquecido à boca da loucura.

setembro 22, 2010

Diário a Beatriz/ dia treze

Meu Deus! assim que a bruma cessa a sua influência e os labirintos de Minos são reduzidos a um jardim de Versallhes, como se dispara claro o horizonte e usufruindo das minhas asas posso insurgir reconciliado contra a distância. Há muito que o mais puro dos sentimentos que me subsiste é o de achar a morte voluntária.

setembro 16, 2010

Diário a Beatriz/ dia doze

Sinto que estou a ser engolido pelo meu oceano interior e não há terra à vista, rocha alguma, qualquer cetáceo de refúgio. Abriu-se uma brecha desta realidade para essa realidade maior ainda. Já não sei se vou a tempo de optar por uma. Em breve estarão as duas perdidas.


setembro 12, 2010

Diário a Beatriz/ dia onze

Somos homens e mulheres porque queremos ser maiores que as palavras, suplantar os sentimentos, resistir à sinceridade, aos nossos desejos, e, quando de novo arrastados a animais olhar o alto das estrelas e lançar nesses anos-luz a distância do nosso sonho em fuga inacessível à gravidade que nos oprime.