Diário a Beatriz / dia vinte e dois
É como se tivesse dentro de mim um segredo, um segredo negro, perverso, que domina toda a minha vida, tão negro que não o consigo evocar.

Em 1947, numa estadia prolongada na Côte d’Azur, Picasso pintou num mural do actual Museu de Antibes, o tríptico "Ulisses e as Sereias". Esta obra insere-se num conjunto de trabalhos sobre o mediterrâneo e os seus mitos. No centro surge um rosto à frente de um mastro. É possível ver uma vela branca de um barco acompanhada pelos tons azuis das águas serenas do mediterrâneo. Na parte de cima do mural, atrás do barco, vislumbra-se a ilha das sereias e duas máscaras que escondem a identidade das ninfas marinhas. O rosto de Ulisses surge ampliado pelo desejo. Curiosamente tem os ouvidos tapados, a que não é alheia a interpretação irónica de Picasso; para o pintor a tentação que o canto das sereias representava era de tais proporções que nem o Herói grego, mesmo preso por cordas ao mastro, poderia suportar tal encantamento. O herói torna-se mais humano, mais pequeno e limitado. As sereias são representadas por formas de peixe com contornos ondulantes e sensuais e pela figura da ave que expressa o seu canto sedutor. Por todos os lados as sereias envolvem o desesperado Ulisses, que parece cada vez mais aprisionado pela dança dos movimentos sugeridos. Na obra surge um novo Ulisses como herói modernista, talvez mais falível e inseguro, mas não menos ambicioso na sua condição de explorar o mundo complexo da mente humana.