setembro 23, 2011

Diário a Beatriz / dia vinte e nove


Por vezes são tantas as ofensas e o medo, inexplicáveis, porque a maior ausência de sentido é a existência de vários que, ao nos encontrarmos assim rodeados pelo nosso egoísmo, todos esses sentidos inúteis, somos bem capazes de no desespero de uma fuga absurda oferecer o coração ao punhal e fechar os olhos à luz.

setembro 07, 2011


Diário a Beatriz / dia vinte e oito


Assim que claridade do dia nos permite distinguir o fim erguemo-nos do nosso leito de esquecimento e como medo irrompemos pelos caminhos contra a transparência da realidade. Nunca saberemos, por mais que se o afirme e procure e negue e ignore, nunca. E no entanto continuaremos a sentir que sim, mesmo quando não. A sentir que sim e a olvidar o que não, porque são inúteis as respostas, ainda mais as definitivas, para quem quer viver para sempre.

agosto 29, 2011

Corpo Espiritual

Há um poço exilado no meu ser.
Escurecido, fugidio, ainda assim o sinto,
como se a réstea da minha alma
fosse uma crescente visão
impregnada do labor do faroleiro
seguindo à frente da tua busca
de contornos e pontos fixos.


Há na profundidade do teu corpo
como se move, como descansa,
como se espelha em modelos despidos,
uma razão para não ter pressa
em recuperar os sentidos.

Há no vagar dos corpos
a antiga consciência de refazer a luz.

julho 13, 2011

a ideia de deus:
uma redoma de terra
em berço assente no húmus
e florescer a cada manhã água,
crianças, árvores, animais,
no olhar contente, brilha o sol
nas mãos abertas, o vento
em esperança, as estrelas

do centro da esfera,
o seu coração brota raízes
que a faz girar todas a manhãs
em festividade de carrossel

julho 02, 2011


Diário a Beatriz/ dia vinte e sete


Deparo-me no crepúsculo com a evidência do tempo e ouço a profunda melodia que desde o início é oferecida a todos os homens. Não é necessário partir, nem tão pouco achar poesia para as coisas. Há uma paz derradeira que nos tenta mas que preferimos adiar em proveito de uma melancia degustada contra a distância do horizonte. Deus não existe, e assim escolheu por dessa forma acontecer mais do que se existisse. Afinal é do inútil que vive o essencial.

junho 29, 2011

poeira na estrada

Ha algo de absolutamente rebelde num idoso a conduzir numa estrada de terra: quando mais anos mais lhe assapa...mais o carro se atravessa e o pó levanta...não sei se de deve a perda qualidades conduçao e controlo veiculo, se a perda da noçao do risco, se pura loucura, ou simplesmente... para mostrar ainda quem manda....sei que tem algo de poético e que portanto, me agrada.

junho 22, 2011

Passear

A gravidade deveria meter folga aos Domingos, para podermos passear pelos tectos.

junho 20, 2011

Diário a Beatriz / dia vinte e seis

Evocando o meu passeio matinal pelos terrenos da história vejo camaradas caídos sob o peso incorpóreo dos ideais. As ervas daninhas alcançam sempre irromper de um olhar, de um pulso, de um peito, e o joio cresce da fé dos cadáveres como a infância dos sonhos. Despojados. O mundo levou-lhes tudo de humanidade. Os lenços, as cigarreiras, as navalhas, os cintos, os botões. E de homens ficaram-lhes apenas as órbitas cegas, as pernas decepadas, os braços amputados, as estrelas no céu. Caminho pelo atalho dos corvos e sigo lendo com tristeza as bandeiras derrubadas como se fossem epitáfios. Liberdade, justiça, paz, perdão. Versos desprezados pela lira de Deus que eles escutaram por amor às mulheres. E apenas se pode dizer que os poetas são os verdadeiros assassinos.

junho 12, 2011

Fecho 478

A pior coisa que uma pessoa pode dizer-me é «Quero que me surpreendas». Pior para ela. Eu fico um pouco triste por ela. Além de um faz de conta inocente não devíamos tolerar comportamentos destes. Então quando acontece no universo dos amantes é motivo de arrepiar. Consegues entender porquê? Mas deve haver uma idade para tudo e como dizia Thoreau admito que vivi.