dezembro 12, 2011
Ilógica de mercado
Vendeu-se. Passou
A ser cotado, a ter valor
A ser coitado, a ter pavor
Mais-valia ou menos-valia
Mais um dia - conferir a actualização
Da mentira, dos dados viciados,
Das promessas renegociadas
Vendeu-se com a loucura dissimulada na etiqueta
De olho nas voltas do mercado da venda e revenda
Atento à troca, à oportunidade de comprar-se
Em auto-liquidação ou insolvência judicial
Talvez chegar a acordo com os enganados para
Refundar o Eu-produto ao mistério dos sinais
E confinar o Eu-serviço à realização da fuga
dezembro 06, 2011
novembro 03, 2011
Ausência
Sem ti as palavras são mudas
E não estás
Se estivesses eu mudaria
Sem ti não são bonitas
Com as palavras ao nosso cuidado
Inventávamos lado a lado
sem interesse pelas aparências
Cuidar-te na noite de ninguém
Seguir no teu corpo um novelo de lã
Até ao sol da manha
E não acordar cansado
Avulta a medonha falta
A luta acorda o abandono
A culpa pela ausência que te persiste.
Liberta com o punhal a palavra presa
Mesmo que a ponta afiada do desejo
Viva a dor que é livre em mim
E só o amor fique ileso
Mas de escapar não te iludas se ficares para trás
As palavras que contam não contam
As nossas histórias
E as outras são tuas e mudas
Todas, porque tu não estás
E não estás
Se estivesses eu mudaria
Sem ti não são bonitas
Com as palavras ao nosso cuidado
Inventávamos lado a lado
sem interesse pelas aparências
Cuidar-te na noite de ninguém
Seguir no teu corpo um novelo de lã
Até ao sol da manha
E não acordar cansado
Avulta a medonha falta
A luta acorda o abandono
A culpa pela ausência que te persiste.
Liberta com o punhal a palavra presa
Mesmo que a ponta afiada do desejo
Viva a dor que é livre em mim
E só o amor fique ileso
Mas de escapar não te iludas se ficares para trás
As palavras que contam não contam
As nossas histórias
E as outras são tuas e mudas
Todas, porque tu não estás
setembro 23, 2011
Diário a Beatriz / dia vinte e nove
Por vezes são tantas as ofensas e o medo, inexplicáveis, porque a maior ausência de sentido é a existência de vários que, ao nos encontrarmos assim rodeados pelo nosso egoísmo, todos esses sentidos inúteis, somos bem capazes de no desespero de uma fuga absurda oferecer o coração ao punhal e fechar os olhos à luz.
setembro 07, 2011
Diário a Beatriz / dia vinte e oito
Assim que claridade do dia nos permite distinguir o fim erguemo-nos do nosso leito de esquecimento e como medo irrompemos pelos caminhos contra a transparência da realidade. Nunca saberemos, por mais que se o afirme e procure e negue e ignore, nunca. E no entanto continuaremos a sentir que sim, mesmo quando não. A sentir que sim e a olvidar o que não, porque são inúteis as respostas, ainda mais as definitivas, para quem quer viver para sempre.
agosto 29, 2011
Corpo Espiritual
Há um poço exilado no meu ser.
Escurecido, fugidio, ainda assim o sinto,
como se a réstea da minha alma
fosse uma crescente visão
impregnada do labor do faroleiro
seguindo à frente da tua busca
de contornos e pontos fixos.
Há na profundidade do teu corpo
como se move, como descansa,
como se espelha em modelos despidos,
uma razão para não ter pressa
em recuperar os sentidos.
Há no vagar dos corpos
a antiga consciência de refazer a luz.
Escurecido, fugidio, ainda assim o sinto,
como se a réstea da minha alma
fosse uma crescente visão
impregnada do labor do faroleiro
seguindo à frente da tua busca
de contornos e pontos fixos.
Há na profundidade do teu corpo
como se move, como descansa,
como se espelha em modelos despidos,
uma razão para não ter pressa
em recuperar os sentidos.
Há no vagar dos corpos
a antiga consciência de refazer a luz.
julho 13, 2011
a ideia de deus:
uma redoma de terra
em berço assente no húmus
e florescer a cada manhã água,
crianças, árvores, animais,
no olhar contente, brilha o sol
nas mãos abertas, o vento
em esperança, as estrelas
do centro da esfera,
o seu coração brota raízes
que a faz girar todas a manhãs
em festividade de carrossel
uma redoma de terra
em berço assente no húmus
e florescer a cada manhã água,
crianças, árvores, animais,
no olhar contente, brilha o sol
nas mãos abertas, o vento
em esperança, as estrelas
do centro da esfera,
o seu coração brota raízes
que a faz girar todas a manhãs
em festividade de carrossel
julho 02, 2011
Diário a Beatriz/ dia vinte e sete
Deparo-me no crepúsculo com a evidência do tempo e ouço a profunda melodia que desde o início é oferecida a todos os homens. Não é necessário partir, nem tão pouco achar poesia para as coisas. Há uma paz derradeira que nos tenta mas que preferimos adiar em proveito de uma melancia degustada contra a distância do horizonte. Deus não existe, e assim escolheu por dessa forma acontecer mais do que se existisse. Afinal é do inútil que vive o essencial.
junho 29, 2011
poeira na estrada
Ha algo de absolutamente rebelde num idoso a conduzir numa estrada de terra: quando mais anos mais lhe assapa...mais o carro se atravessa e o pó levanta...não sei se de deve a perda qualidades conduçao e controlo veiculo, se a perda da noçao do risco, se pura loucura, ou simplesmente... para mostrar ainda quem manda....sei que tem algo de poético e que portanto, me agrada.
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