Tenho saudades. Tenho febre em destoar pelas saudades de mim. Nostalgia terrível do espaço onde é possível assistir-me. Quero estar só no modelo ideal provocado pela escuridão, embrionário das primeiras ânsias, nesse típico fogo belo e desordenado.
Querer unicamente seguir – ser engolido a partir de dentro, em gestos não violentos além da visibilidade das cores desbotadas e de canais retorcidos como ferros maleáveis. Quero amplamente voltar – implodir de um extremo ao outro, poupando-me ainda à configuração do instrumento do ruído, cavalgando na geometria disseminada do arco-íris, suficientemente longe para não estalar gotículas de medo.
Quero enganar-me. Destoar com precisão biológica. Tentar-me desprovido dos ensinamentos exteriores, o mesmo que esquecer transcendentes enunciações filosóficas, o mesmo que desarticular a convergência dos saberes civilizacionais. Querer travar a luta do mito da realização não pela cultura colectiva, mas sim pelo incompleto em relação ao absoluto da minha ilusão potencial. (Ilusão é a alma).
O poder de distrair-se na direcção certa… transportar, sem disso ou alguém dar conta. Pois se tudo levo não é mais do que fortalecer uma exclusiva pessoalidade. E se não trago nada nem ninguém, posso finalmente aproximar-me da música reproduzida pela repetição da orquestra selvática do mundo, na qual me interponho no silêncio do sol.
fevereiro 26, 2012
fevereiro 05, 2012
Diário a Beatriz / dia trinta
Será, Beatriz, desencontro o nome do nosso destino. E, por habitarmos a alma, a misteriosa sina de possuir sempre na lonjura do infinito a seiva que a alimenta e no vazio mais alto a estrela que a ilumina. Esta estranha força que nos assiste constante, preclara ao nosso desassossego de ver sempre tudo como talvez veria um cego de nascença se após o milagre da sua cura fosse a noite a sua primeira visão. A única esperança que se concretiza é aquela que se adia para sempre. Sabes bem que me entregarei a outras mulheres como te entregarás tu a outros homens. E seremos claros nisso como a manhã e profundos como o abismo e assumiremos com serenidade o desatino desse sangue e com modéstia a consequência dessa carne.
Onde estivermos não estará o nosso coração e habitaremos o corpo como um vagabundo que se abriga nas ruínas de uma casa abandonada.
O futuro virá. Quem formos. Não poderemos amar. Não poderemos morrer. Estaremos abandonados onde nenhuma realidade nos sabe exigir.
fevereiro 02, 2012
Bernard Quiriny
Pierre –Alexandre Skovsky (1919-1940): filho de pai russo e de mãe suíça, este rapaz foi um modelo de precocidade em todos os domínios. Aos nove anos, foge de casa e erra durante quatro meses pelas estradas da Europa antes de os guardas o deterem e reconduzirem ao domicílio familiar. Aos treze anos, especula na bolsa, ganha uma fortuna e compra vinte hectares de vinha que a filoxera devasta logo a seguir. Aos quinze anos, tem dois filhos: o primeiro morre ao nascer, ao mesmo tempo que a sua mãe; o segundo, filho de uma senhora da sociedade quase menopáusica, nasce idiota e desprovido do braço esquerdo. Aos dezasseis anos, escreve a sua autobiografia, Um Jovem Apressado. Entre os dezassete e os dezanove anos, redige seis romances, dois dos quais em russo, casa-se, divorcia-se, passa seis meses na prisão por burla, converte-se ao catolicismo e perde um olho num acidente a cavalo. Aos vinte anos, queima todos os seus manuscritos, reescreve-os e queima-os de novo – escapa apenas a segunda versão de Um Jovem Apressado. Um ano mais tarde, mete uma bala na cabeça depois de ter garatujado as seguintes palavras no canto de uma mesa: “Vivi bem; estou a envelhecer. Vou-me embora.”
Bernard Quiriny, Contos Carnívoros, Edições Ahab
janeiro 19, 2012
Soneto a uma fotografia do calendário Pirelli

O seu cabelo preto parece escutar,
sua forma prendida em concha,
a praia nua espreita o véu na onda
escurecida na areia tremeluzente.
É o vazio que ajusta a própria luz
e na calma dobrada o banho adorna.
O fio de espera nos lábios agarrando-se,
contendo em recuo o som da corrente.
A rebentação nasce como arrepio e sal,
retém o centro, como rocha, rodeada
pelas vénias de rastejamento aquático.
A música que ela escuta e não vês
é barco que gela quando naufraga a tal,
batendo na espiral que talha o teu mar.
(fotografia do Calendário Pirelli 2012)
dezembro 12, 2011
Ilógica de mercado
Vendeu-se. Passou
A ser cotado, a ter valor
A ser coitado, a ter pavor
Mais-valia ou menos-valia
Mais um dia - conferir a actualização
Da mentira, dos dados viciados,
Das promessas renegociadas
Vendeu-se com a loucura dissimulada na etiqueta
De olho nas voltas do mercado da venda e revenda
Atento à troca, à oportunidade de comprar-se
Em auto-liquidação ou insolvência judicial
Talvez chegar a acordo com os enganados para
Refundar o Eu-produto ao mistério dos sinais
E confinar o Eu-serviço à realização da fuga
dezembro 06, 2011
novembro 03, 2011
Ausência
Sem ti as palavras são mudas
E não estás
Se estivesses eu mudaria
Sem ti não são bonitas
Com as palavras ao nosso cuidado
Inventávamos lado a lado
sem interesse pelas aparências
Cuidar-te na noite de ninguém
Seguir no teu corpo um novelo de lã
Até ao sol da manha
E não acordar cansado
Avulta a medonha falta
A luta acorda o abandono
A culpa pela ausência que te persiste.
Liberta com o punhal a palavra presa
Mesmo que a ponta afiada do desejo
Viva a dor que é livre em mim
E só o amor fique ileso
Mas de escapar não te iludas se ficares para trás
As palavras que contam não contam
As nossas histórias
E as outras são tuas e mudas
Todas, porque tu não estás
E não estás
Se estivesses eu mudaria
Sem ti não são bonitas
Com as palavras ao nosso cuidado
Inventávamos lado a lado
sem interesse pelas aparências
Cuidar-te na noite de ninguém
Seguir no teu corpo um novelo de lã
Até ao sol da manha
E não acordar cansado
Avulta a medonha falta
A luta acorda o abandono
A culpa pela ausência que te persiste.
Liberta com o punhal a palavra presa
Mesmo que a ponta afiada do desejo
Viva a dor que é livre em mim
E só o amor fique ileso
Mas de escapar não te iludas se ficares para trás
As palavras que contam não contam
As nossas histórias
E as outras são tuas e mudas
Todas, porque tu não estás
setembro 23, 2011
Diário a Beatriz / dia vinte e nove
Por vezes são tantas as ofensas e o medo, inexplicáveis, porque a maior ausência de sentido é a existência de vários que, ao nos encontrarmos assim rodeados pelo nosso egoísmo, todos esses sentidos inúteis, somos bem capazes de no desespero de uma fuga absurda oferecer o coração ao punhal e fechar os olhos à luz.
setembro 07, 2011
Diário a Beatriz / dia vinte e oito
Assim que claridade do dia nos permite distinguir o fim erguemo-nos do nosso leito de esquecimento e como medo irrompemos pelos caminhos contra a transparência da realidade. Nunca saberemos, por mais que se o afirme e procure e negue e ignore, nunca. E no entanto continuaremos a sentir que sim, mesmo quando não. A sentir que sim e a olvidar o que não, porque são inúteis as respostas, ainda mais as definitivas, para quem quer viver para sempre.
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