O meu ultimo fósforo
são os sonhos
onde os milagres ainda acontecem.
janeiro 21, 2014
fevereiro 26, 2012
Fecho 477
Tenho saudades. Tenho febre em destoar pelas saudades de mim. Nostalgia terrível do espaço onde é possível assistir-me. Quero estar só no modelo ideal provocado pela escuridão, embrionário das primeiras ânsias, nesse típico fogo belo e desordenado.
Querer unicamente seguir – ser engolido a partir de dentro, em gestos não violentos além da visibilidade das cores desbotadas e de canais retorcidos como ferros maleáveis. Quero amplamente voltar – implodir de um extremo ao outro, poupando-me ainda à configuração do instrumento do ruído, cavalgando na geometria disseminada do arco-íris, suficientemente longe para não estalar gotículas de medo.
Quero enganar-me. Destoar com precisão biológica. Tentar-me desprovido dos ensinamentos exteriores, o mesmo que esquecer transcendentes enunciações filosóficas, o mesmo que desarticular a convergência dos saberes civilizacionais. Querer travar a luta do mito da realização não pela cultura colectiva, mas sim pelo incompleto em relação ao absoluto da minha ilusão potencial. (Ilusão é a alma).
O poder de distrair-se na direcção certa… transportar, sem disso ou alguém dar conta. Pois se tudo levo não é mais do que fortalecer uma exclusiva pessoalidade. E se não trago nada nem ninguém, posso finalmente aproximar-me da música reproduzida pela repetição da orquestra selvática do mundo, na qual me interponho no silêncio do sol.
Querer unicamente seguir – ser engolido a partir de dentro, em gestos não violentos além da visibilidade das cores desbotadas e de canais retorcidos como ferros maleáveis. Quero amplamente voltar – implodir de um extremo ao outro, poupando-me ainda à configuração do instrumento do ruído, cavalgando na geometria disseminada do arco-íris, suficientemente longe para não estalar gotículas de medo.
Quero enganar-me. Destoar com precisão biológica. Tentar-me desprovido dos ensinamentos exteriores, o mesmo que esquecer transcendentes enunciações filosóficas, o mesmo que desarticular a convergência dos saberes civilizacionais. Querer travar a luta do mito da realização não pela cultura colectiva, mas sim pelo incompleto em relação ao absoluto da minha ilusão potencial. (Ilusão é a alma).
O poder de distrair-se na direcção certa… transportar, sem disso ou alguém dar conta. Pois se tudo levo não é mais do que fortalecer uma exclusiva pessoalidade. E se não trago nada nem ninguém, posso finalmente aproximar-me da música reproduzida pela repetição da orquestra selvática do mundo, na qual me interponho no silêncio do sol.
fevereiro 05, 2012
Diário a Beatriz / dia trinta
Será, Beatriz, desencontro o nome do nosso destino. E, por habitarmos a alma, a misteriosa sina de possuir sempre na lonjura do infinito a seiva que a alimenta e no vazio mais alto a estrela que a ilumina. Esta estranha força que nos assiste constante, preclara ao nosso desassossego de ver sempre tudo como talvez veria um cego de nascença se após o milagre da sua cura fosse a noite a sua primeira visão. A única esperança que se concretiza é aquela que se adia para sempre. Sabes bem que me entregarei a outras mulheres como te entregarás tu a outros homens. E seremos claros nisso como a manhã e profundos como o abismo e assumiremos com serenidade o desatino desse sangue e com modéstia a consequência dessa carne.
Onde estivermos não estará o nosso coração e habitaremos o corpo como um vagabundo que se abriga nas ruínas de uma casa abandonada.
O futuro virá. Quem formos. Não poderemos amar. Não poderemos morrer. Estaremos abandonados onde nenhuma realidade nos sabe exigir.
fevereiro 02, 2012
Bernard Quiriny
Pierre –Alexandre Skovsky (1919-1940): filho de pai russo e de mãe suíça, este rapaz foi um modelo de precocidade em todos os domínios. Aos nove anos, foge de casa e erra durante quatro meses pelas estradas da Europa antes de os guardas o deterem e reconduzirem ao domicílio familiar. Aos treze anos, especula na bolsa, ganha uma fortuna e compra vinte hectares de vinha que a filoxera devasta logo a seguir. Aos quinze anos, tem dois filhos: o primeiro morre ao nascer, ao mesmo tempo que a sua mãe; o segundo, filho de uma senhora da sociedade quase menopáusica, nasce idiota e desprovido do braço esquerdo. Aos dezasseis anos, escreve a sua autobiografia, Um Jovem Apressado. Entre os dezassete e os dezanove anos, redige seis romances, dois dos quais em russo, casa-se, divorcia-se, passa seis meses na prisão por burla, converte-se ao catolicismo e perde um olho num acidente a cavalo. Aos vinte anos, queima todos os seus manuscritos, reescreve-os e queima-os de novo – escapa apenas a segunda versão de Um Jovem Apressado. Um ano mais tarde, mete uma bala na cabeça depois de ter garatujado as seguintes palavras no canto de uma mesa: “Vivi bem; estou a envelhecer. Vou-me embora.”
Bernard Quiriny, Contos Carnívoros, Edições Ahab
janeiro 19, 2012
Soneto a uma fotografia do calendário Pirelli

O seu cabelo preto parece escutar,
sua forma prendida em concha,
a praia nua espreita o véu na onda
escurecida na areia tremeluzente.
É o vazio que ajusta a própria luz
e na calma dobrada o banho adorna.
O fio de espera nos lábios agarrando-se,
contendo em recuo o som da corrente.
A rebentação nasce como arrepio e sal,
retém o centro, como rocha, rodeada
pelas vénias de rastejamento aquático.
A música que ela escuta e não vês
é barco que gela quando naufraga a tal,
batendo na espiral que talha o teu mar.
(fotografia do Calendário Pirelli 2012)
dezembro 12, 2011
Ilógica de mercado
Vendeu-se. Passou
A ser cotado, a ter valor
A ser coitado, a ter pavor
Mais-valia ou menos-valia
Mais um dia - conferir a actualização
Da mentira, dos dados viciados,
Das promessas renegociadas
Vendeu-se com a loucura dissimulada na etiqueta
De olho nas voltas do mercado da venda e revenda
Atento à troca, à oportunidade de comprar-se
Em auto-liquidação ou insolvência judicial
Talvez chegar a acordo com os enganados para
Refundar o Eu-produto ao mistério dos sinais
E confinar o Eu-serviço à realização da fuga
dezembro 06, 2011
novembro 03, 2011
Ausência
Sem ti as palavras são mudas
E não estás
Se estivesses eu mudaria
Sem ti não são bonitas
Com as palavras ao nosso cuidado
Inventávamos lado a lado
sem interesse pelas aparências
Cuidar-te na noite de ninguém
Seguir no teu corpo um novelo de lã
Até ao sol da manha
E não acordar cansado
Avulta a medonha falta
A luta acorda o abandono
A culpa pela ausência que te persiste.
Liberta com o punhal a palavra presa
Mesmo que a ponta afiada do desejo
Viva a dor que é livre em mim
E só o amor fique ileso
Mas de escapar não te iludas se ficares para trás
As palavras que contam não contam
As nossas histórias
E as outras são tuas e mudas
Todas, porque tu não estás
E não estás
Se estivesses eu mudaria
Sem ti não são bonitas
Com as palavras ao nosso cuidado
Inventávamos lado a lado
sem interesse pelas aparências
Cuidar-te na noite de ninguém
Seguir no teu corpo um novelo de lã
Até ao sol da manha
E não acordar cansado
Avulta a medonha falta
A luta acorda o abandono
A culpa pela ausência que te persiste.
Liberta com o punhal a palavra presa
Mesmo que a ponta afiada do desejo
Viva a dor que é livre em mim
E só o amor fique ileso
Mas de escapar não te iludas se ficares para trás
As palavras que contam não contam
As nossas histórias
E as outras são tuas e mudas
Todas, porque tu não estás
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